O que está enferrujando a sua mediunidade?
Nem sempre aquilo que atrapalha nossa caminhada espiritual está dentro do terreiro.
Às vezes, a ferrugem começa lá fora.
No ego que precisa vencer todas as conversas. Na comparação que faz você olhar mais para o caminho do outro do que para o seu. No egoísmo que, pouco a pouco, endurece a capacidade de servir.
Na falta de educação com quem convive conosco. Na palavra atravessada. Na necessidade de ter razão. Na dificuldade de pedir desculpas.
Existem também relacionamentos que nos consomem. Pessoas que mantemos por perto mesmo sabendo o quanto aquela convivência nos desorganiza. Ambientes que nos deixam permanentemente em guerra. Mágoas antigas que carregamos para todos os lugares como se já fossem parte de quem somos.
As pequenas ferrugens de todos os dias
E há coisas ainda menores.
A irritação que virou hábito.
A reclamação de todos os dias.
A inveja que ninguém confessa.
A competição dentro do terreiro.
A necessidade de reconhecimento.
O incômodo quando o outro cresce.
O prazer secreto quando alguém tropeça.
Nada disso chega fazendo barulho.
Ferrugem não chega fazendo barulho.
Ela se instala.
Um pouco hoje.
Outro pouco amanhã.
Até que aquilo que deveria se movimentar com naturalidade começa a ranger.
E talvez seja exatamente isso que aconteça conosco.
A mediunidade continua ali.
Os Guias continuam trabalhando.
O terreiro continua cantando.
Mas nós começamos a chegar mais pesados.
Qualquer orientação incomoda. Qualquer correção parece perseguição. Qualquer irmão parece concorrente. Qualquer obrigação parece demais. Qualquer renúncia parece injusta.
E então podemos cometer um erro perigoso: procurar uma explicação espiritual para aquilo que nasceu nas nossas próprias escolhas e relações.
Nem todo peso é demanda.
Às vezes, é acúmulo.
É coisa que não limpamos dentro de nós.
O que, na minha vida, está me enferrujando?
Por isso, cuidar da mediunidade também exige uma pergunta que não é confortável:
O que, na minha vida, está me enferrujando?
Talvez seja uma pessoa.
Talvez seja uma relação.
Talvez seja um ambiente.
Talvez seja a maneira como você trata os outros.
Talvez seja a necessidade de provar alguma coisa.
Talvez seja o orgulho que não deixa você ouvir.
Ou talvez seja alguma coisa que você já sabe exatamente o que é, mas ainda não teve coragem de mover de lugar.
Porque chega uma hora em que não basta acender vela, tomar banho de ervas, fazer firmeza e entrar no terreiro.
É preciso olhar para a própria vida.
Ver o que você alimenta.
Quem você mantém por perto.
Como você fala.
Como você reage.
Como você trata quem não pode lhe oferecer nada.
E, principalmente:
o que você está permitindo permanecer dentro de você.
Porque há ferrugens que nenhum banho consegue retirar.
São aquelas que começam a sair quando a gente muda de postura.
Talvez sua mediunidade não esteja ficando mais pesada.
Talvez seja você que esteja carregando coisas demais até ela.
— Pai Daniel
Terreiro Luz de Aruanda